Cisne Negro

Cisne Negro, de Darren Aronofsky (2010). A @ladyrasta tem razão quando diz que se o Twitter escolhesse o vencedor dessa edição do Oscar, as estatuetas seriam dadas a Cisne Negro. Assim como a dela, minha timeline foi inundada por cinéfilos ovacionando o novo filme de Darren Aronofsky. O suficiente para eu não me aguentar e baixar o filme, que revi ontem no cinema. Em sua crítica na última sexta-feira para a Folha de São Paulo, o crítico Inácio Araújo lembrou da plateia facilmente impressionável e é verdade. O público vem beijando o caminho por onde cineastas como Christopher Nolan passam; cineastas esses que muito menos fazem do que quebrar um pouco a ordem e propor “roteiros difíceis”. O difícil na arte destes profissionais, no entanto, não é a digestão e a percepção, mas fazer seus consumidores aguardarem por longas horas para entender o que se passa ali afinal – e não muito resta, além disso.

Minha principal objeção é a de que Aronofsky realmente tenha emaranhado seu roteiro para a percepção do público. O final não é muito surpreendente se você prestar um mínimo de atenção na história – o que é compreensível, já que na maioria dos outros grandes filmes de nossa época é possível dormir durante todo o restante da duração sem notar diferença, desde que veja seu pretenso grand finale. Nem mesmo a história é original, e também não vejo isto sendo proposto. No filme, Nina é escolhida para apresentar-se como Cisne Branco/Negro no ballet O Lago dos Cisnes. A carga é tanta que a mocinha frígida vai endoidando aos poucos. É uma parábola clichê do sofrimento da criação da arte pelo artista. Nada demais.

Longe de ser uma comédia, Cisne Negro é um filme de horror bem feito, mas Darren Aronofsky salpica doses de filme B e muito, muito kitsch. Uso mais notável em qualquer momento em que o longa entra na construção do lado negro do cisne. Mais especificamente quando fala de sexo. Cenas como a que o diretor do espetáculo diz que quer que a personagem de Natalie Portman se masturbe – bem como nas que Nina obedece a tal ordem – ou nas aparições de Mila Kunis não podem ser escritas com nenhuma seriedade. Ou podem.

É justamente este ponto que me fez querer rever o mais rápido possível este novo longa de um cara que já produziu as bombas Pi e, aqui principalmente, Fonte da Vida.

Fonte da Vida deve estar como uma das obras principais no museu do kitsch, mas por seu absoluto mal gosto. O filme se esforça muito para passar emoção nenhuma em um cenário entusiasmado com a grandiloquência. Nada, porém, chegar a lugar algum. E seria fácil e compreensível enxergar tudo isso em reprise se agradar o bom humor usado na construção de tudo que sustenta Cisne Negro. Eu prefiro acreditar que não. Que Aronofsky assistiu a seu filme e teve uma aula de tudo-o-que-não-se-deve-fazer-em-um-filme.

Mas ainda assim, não consigo deixar de pensar em Cisne Negro como um “golpe de sorte”. O erro na hora certa.  Eu acredito no humor mas ainda acho que o filme se leva mais a sério do que deveria. Além do kitsch Aronofsky também pega pesado na “câmera na mão”,  técnica de uso inclassificável. Neste filme pende para o lado do exagero, mas é incrível como o filme consegue sugar isso para seu bem em algum tempo. Embora o uso aconteça antes mesmo de Nina receber o papel, a fotografia trêmula consegue dar ao filme um clímax de perseguição com um timing perfeito que justifica o uso de tal técnica.

Mas existem acertos que são indispensáveis em apontar para a direção de Darren Aronofsky, que deu um salto em O Lutador e assim permanece aqui. O diretor consegue atenção para uma arte distante do público e ainda assim emocioná-lo; e alinhando montagem e fotografia, consegue cinematografar uma arte plenamente teatral. Capta o movimemento, a repetição e a rigidez dos passos do ballet como em ótimas cenas de ação. Também consegue captar os melhores momentos em tela de Natalie Portman, como quando Nina conta para sua mãe por celular que conseguiu o papel principal.

Assim como os outros problemas já ditos, Cisne Negro muitas vezes não consegue escapar do clichê. O roteiro é  um pouco previsível e mastigado nos inoportunos momentos em que tenta explicar o clássico Lago dos Cines.

Mas sim, estou impressionado.

 

Filmes citados:
1998 PI (Pi)
2006 FONTE DA VIDA (The Fountain)
2008 O LUTADOR (The Wrestler) ****
2010 CISNE NEGRO (Black Swan) ****

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5 Respostas para “Cisne Negro

  1. Pingback: Tweets that mention Cisne Negro « no escuro e vendo -- Topsy.com·

  2. Só sei que deu medo e eu vou ficar alguns dias sem dormir. =P
    E dá vontade de rever, vááárias vezes. (o que, se pensarmos em A Fonte da Vida, é inconcebível!)

  3. Rafaella, não estou surpreso hehe

    Renato, eu gosto do exagero por levar um pouco no bom humor, de outra forma talvez teríamos, como disse, um novo Fonte da Vida.

  4. Interessante, instigante, apesar das críticas negativas -citando exageros-, inclusive de familiares!
    A parte kitsch já referida é apenas base do enredo tschaikoviskiano de seu próprio -mais que abusado- ballet. Tudo se encaixa com maestria e suspense crescente na transformação da personagem. Bom! Dei 8,5 como nota geral, parabéns ao diretor!

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